Resenha de Conto: Master Zacharius - Júlio Verne (1874)

(1 voto, média de 5.00 em 5)

Sinopse:

Renomado e orgulhoso relojoeiro genovense se vê à beira da insanidade quando seus delicados relógios artesanais, admirados em toda Europa, começam - quase que simultaneamente - a parar sem motivo aparente. Em meio a infrutíferas tentativas em repará-los, sua disposição física e emocional começa a deteriorar.

A situação se agrava quando ele passa a crer que sua alma e coração estão intrinsecamente ligados às batidas dos relógios e que sua vida, assim como seus inventos, caminha para ao fim; sua filha e criados acham se tratar de ‘obra do demônio’. A situação piora quando entra em cena um estranho e diabólico anão – a personificação ‘humana’ dos relógios e natureza do tempo – que chantageia o relojoeiro prometendo-lhe dar um fim a sua aflição em troca da mão de sua filha.

Crítica:

Sim, difícil acreditar que, dez anos antes de sua estréia ‘oficial’, o mesmo Verne de clássicos absolutos da aventura e ficção científica, seria capaz de escrever uma obra de intenso horror metafísico assombrada pelo fatalismo, insanidade e temor existencial. Pouco importa que o conto seja derivativo dos textos do E.T.A. Hoffmann, cuja influência no fantástico francês foi tão forte e importante quanto à de Edgar Allan Poe; muito menos que o autor grite em cada linha sua admiração pelas suas obras (o conto exala romantismo alemão pelos poros!); presentes também o histerismo e (melo) drama tipicamente Hoffmaneanos, porém sem os mesmos maneirismos estilísticos e flamboyance tão comuns na Alemanha do período (a prosa de Verne é mais seca e objetiva).

Dos muitos trechos memoráveis, vale citar a passagem em que o relojoeiro ensandecido abre o alçapão que dá acesso a corrente de um caudaloso rio – abaixo de sua casa-palafita – e contempla o ‘abismo nietzscheano’. Constantes choques entre racional/irracional, bem/mal, criação/destruição criam um “desequilíbrio” e efeito desorientador na medida certa para perturbar e instigar. O anão como símbolo/personificação da natureza do tempo é assustador e memorável.

Tenho minhas dúvidas se Master Zacharius irá agradar aqueles que procuram uma obra de puro horror – me parece mais um híbrido de duas das três correntes principais do fantástico francês [além do pastiche]: conte frénétique e conte fantastique –, mas como conto de loucura e deterioração mental é uma pequena obra prima.

Se todos os pastiches e homenagens fossem deste nível...

Nota:10

 


Comentários   

#3 Ramon Bacelar » 16-11-2011 10:35

Álvaro,
Que eu saiba só esse. Me parece que sua produção contística é escassa.
Abs!
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Ramon Bacelar

#2 Alvaro Dominges » 14-11-2011 19:39

Este conto merece mesmo dez. Eu gostaria de saber se existem outros contos de terror de Julio Verne. Você conhece mais algum?
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Alvaro Dominges

#1 Lucas Maziero » 14-11-2011 14:06

Boa dica de leitura!
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Lucas Maziero

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