Resenha: Deixe-me Entrar

(2 votos, média de 4.00 em 5)

Muito bem, senhores, vamos falar do badalado Deixe-me entrar. Apesar das inúmeras resenhas espalhadas pela Internet sobre este filme, e o seu lançamento já ter ocorrido há um bom tempo, eu não poderia deixar passar a oportunidade de trazê-lo às páginas do site “A Irmandade”, uma vez que o potencial público deste espaço literário poderá apreciar muito o gênero fantástico do referido filme. Afinal, convenhamos que vampiros, pelo menos pra nós, nunca soa démodé.

Comecemos, como de praxe, com a sinopse: um garoto de 12 anos, franzino e solitário, vive um drama complicado de administrar. Os pais acabaram de se divorciar e, pra piorar a situação, ele sofre bulling de um trio de garotos que não lhe dá uma folga. Pois é bem nesse drama aí, de ficar esperando que o pai lhe faça uma visita, ou fugindo das brincadeiras de mal gosto dos companheiros de escola de índole duvidosa, que o guri acaba conhecendo uma garota da mesma idade, bem esquisita, a nova moradora do  apartamento ao lado. Esquisita para os outros, não pra ele. A empatia entre os dois, que se encontram no playground gélido do prédio de apartamentos, quase todas as noites, é forte por uma razão muito simples: a solidão, a simples falta de amigos, que no menino os motivos são meio obscuros, já que a situação de pais se separando não é, vamos dizer assim, um bicho de 7 cabeças ( bom, talvez fosse no início dos anos 80, época da ambientação do filme), porém em relação a menina há um motivo muito mais consistente: ela é uma vampira e não dá pra ficar estabelecendo vínculos de amizade, de repente, com o seu jantar, certo?

Sabe-se, notória e amplamente, via Internet, que Deixe-me entrar é o remake do filme sueco “Deixe ela entrar”, de 2008, que causou uma ótima repercussão internacional, considerado, na época, como uma fábula de horror romântica, dirigida  por Tomas Alfredson, baseado no livro de John Ajvide Lindqvist, que também roteirizou a película por aqueles pagos. Os produtores americanos, que costumam aproveitar-se de todos os sucessos estrangeiros cinematográficos para ganharem um dimdim a mais, deixaram o serviço de requentar o pão para Matt Reeves, diretor do criativo “Cloverfield”. Alguns dizem que a versão dele ficou no estilo americanizado muito comum de trocar seis por meia dúzia, outros argumentam que o remake, fiel às cenas originais, decorreu de bom senso: apesar de limitado, era o melhor a ser feito. Outros ainda alegam que o diretor, apesar das limitações, conseguiu botar o seu dedo criativo na feitura do filme. Fato é que eu não vi a versão sueca. Então, vou me reportar apenas à versão americana que, segundo os críticos, não faz feio à primeira de 2008.

A propósito, sobre o livro vale registrar o sucesso do mesmo em resgatar a áurea clássica do vampiro, mesmo que sob a figura de uma menina de 12 anos, trazendo de volta o status de horror e mistério que cercam estas fascinantes criaturas míticas da noite.

Pois bem, Deixe-me entrar vale cada centavo da locação. Gostei muito. É um bom filme, mas vai um aviso importante: não esperem um filme de vampiro cheio de efeitos especiais mirabolantes ou cenas de ação arrebatadoras no estilo de, por exemplo, a trilogia da Stephenie Meyer.  Há efeitos especiais, sim, porém usados de maneira econômica que dão direitinho conta do recado, embora percebamos os deslizes na rapidez da computação gráfica de CG em cenas com maior adrenalina. Mas isso nem de longe tira o brilho do filme. E também nem dá, assim, pra comparar com os vampiros purpurinados da Stephenie Meyer,  até porque, como já disse sobre o livro, o mito aqui é tratado dentro de suas tradicionais e irresistíveis características: a menina não pode ver o líquido vermelho que fica alucinada, não pode tomar sol, sofre um metabolismo físico medonho pela abstinência de sangue, e se não demonstra horror ao ver um crucifixo é porque nenhum padre ou caçador de vampiros lhe faz frente durante todo o filme.

E o filme tem, em minha opinião, elementos bem distribuídos de alguns gêneros importantes do cinema: o drama, o romance, o suspense, o policial, o horror, razão pela qual a narrativa transcorre sem pressa, num clima meio melancólico, embalado por uma trilha sonora discreta em cenários sempre gélidos dominados pela neve que se abate numa pacata cidadezinha, cidadezinha esta que vai conhecendo os seus primeiros crimes hediondos. Há um psicopata na cidade e há um policial bem desconfiado e competente que está no seu encalço. A fluência de ritmo é cadenciada, mas irresistivelmente envolvente. Lindo de ver! Os gêneros, reitero, são muito bem diluídos, permeados por explicações mais visuais do que verbais, uma vez que você é apresentado de forma direta, seca, sem muitos preâmbulos às cenas que, aos poucos, juntando uma aqui, outra acolá, vão formando o cerne dramático da vampirinha: ela não é má por natureza, é uma predadora, muito eficiente, diga-se de passagem, que necessita se alimentar. Azar de quem acaba se atravessando no seu caminho quando a fome aperta.


O casal de atores pré-adolescentes é muito bom, principalmente ela, com destaque à suavidade, à melancolia, o sorriso discreto e contido, expressos num rosto de menina comum, em contraste com o rigor dos traços duros da esfomeada por sangue ou a criatura lépida e mortal, na sua versão computadorizada, quando parte para o ataque.

Deixe-me entrar, para fechar a conta, tem boas cenas de suspense que podem chocar o público comum, atraídos pela sinopse romântica, quando o pai da menina vai à caça para trazer alimento para ela ou cenas de horror quando a própria, impaciente, precisa se virar sozinha.  Além disso, o clima intimista, focando mais as crianças, e deixando os adultos com espaços bem reduzidos de atuação, contribui para imprimir à narrativa visual um efeito perturbador. Vemos o garoto, aos poucos, enredado, empurrado para o lado escuro do sofrimento humano, empurrado para a garota esquisita pela simples ausência de amizades por outras crianças ou, o que é pior, pela falta de comunicação com a mãe. E este afastamento tem um peso psicológico importante nas estruturas sociais da vida real, que também costumam acabar em tragédias. O roteiro tem o mérito, entre as suas idas e vindas dramáticas, de não deixar transparecer a intenção da menina. Num certo ponto da narrativa, não sabemos se o interesse dela no menino é circunstancial ou há algo mais forte para se investir num relacionamento improvável. Há boas pistas para saber como as coisas podem acabar, mas você só tem certeza na última cena. Bom filme, como eu disse.


Comentários   

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Ana

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#18 Lara » 12-03-2015 17:26

Filme realmente bom, não? Assisti o original há algum tempo, assisti o remake no Netflix, esses dias e acabei lendo o livro, por sugestão dos nobres comentaristas, aqui. Sou daquelas pessoas que precisam realmente ler o livro que originou o filme, entender as nuances e preencher as lacunas. A grande polêmica aqui para mim é: Onde reside o mal realmente? Eli (Abby) não é má; é apenas um ser que precisa sobreviver e faz o que é preciso para que isso aconteça.
Aliás, o livro é recheado de temas polêmicos - bullying, pedofilia, homossexualismo , alcoolismo - e nesse meio há dois mundos aparentemente opostos, o das crianças e dos adultos; e o mal que existe verdadeiramente , eu encontrei ai, nos lares disfuncionais. Portanto, a aproximação dos protagonistas não se dá por mero acaso, mas sim devido às circunstâncias que os cercam, tanto que a relação entre Eli (Abby) e o seu protetor é totalmente diferente da relação que ela desenvolve com Oskar(Owen).
0 +−

Lara

#17 Leandro Oliveira » 09-03-2015 00:50

Fiquei extremamente apaixonado faria o mesmo que ele fez ficaria com ela.
+1 +−

Leandro Oliveira

#16 Daniela Lopes » 08-05-2014 22:50

Saudações. Ao ver essa versão, me lembrei do que houve com o filme " O silêncio do Lago". Hollywood vai continuar com a tendência de americanizar filmes cuja visão difere do "American way of life". O sueco "Deixe ela entrar" é sombrio, seco e você tem a certeza de que os personagens caminham para um destino pouco amigável. A garota vampiro precisa de um novo protetor e o ingênuo garoto é seu alvo acidental. O filme não se utiliza de recursos de imagens mirabolantes para contar uma boa história de vampiros. A atriz mirim é estranha, interpreta bem a criatura amoral e o garoto parece mesmo uma alma perdida, fomentando pensamentos sombrios, mas sem força para colocá-los em prática até conhecer a vampira e entender sua real natureza. Ao ver o remake, me incomodou que o menino parecia esperto demais para precisar de proteção. Chloe Moretz, a atriz que vive a vampira é algo um pouco melhor do filme, mas parece estar seguindo caminho parecido com a atriz Jodelle Ferland, aparecendo em tudo quanto é filme de terror com vilões mirins. Não gostei dos efeitos especiais, achei desnecessário e forçado. A cena do incêndio no quarto do hospital ficou melhor no filme sueco.
0 +−

Daniela Lopes

#15 Tyson » 22-04-2014 18:37

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Tyson

#14 nathaly » 26-08-2013 13:35

eu assisti e adorei o filme :D
+1 +−

nathaly

#13 amanda figueiredo » 17-04-2012 18:08

Nossa , eu adorei a versão holywodiana , muito mesmo ! Mas já que disseram que é um remake do filme "deixe ela entrar" , estou louca pra assistir a versão verdadeira !!! deve ser muito bom mesmo .
+1 +−

amanda figueiredo

#12 F. P. Andrade » 01-12-2011 17:51

O filme americano é um poço raso comparado ao original sueco. A verdade é que essa versão não precisava existir! Não passa de uma copia vazia e quase quadro a quadro do sueco. Li o livro, assisti o original e quando vi a versão emericana me arrependi amargamente. Não nego que os actores mirins americanos são bons, só não superam os actores originais nem em interpretação nem em profundidade. Também achei infeliz a mudança dos nomes originais: Éli virou Abby e Oskar Owen. Essa mudança destruiu por completo uma das grandes sacadas do livro e do filme sueco, que é o fato de Éli (Abby) ser um eunuco de nome Élias e ter mais de 200 anos.
Um abraço!
+1 +−

F. P. Andrade

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