Resenha: Deixe-me Entrar

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Muito bem, senhores, vamos falar do badalado Deixe-me entrar. Apesar das inúmeras resenhas espalhadas pela Internet sobre este filme, e o seu lançamento já ter ocorrido há um bom tempo, eu não poderia deixar passar a oportunidade de trazê-lo às páginas do site “A Irmandade”, uma vez que o potencial público deste espaço literário poderá apreciar muito o gênero fantástico do referido filme. Afinal, convenhamos que vampiros, pelo menos pra nós, nunca soa démodé.

Comecemos, como de praxe, com a sinopse: um garoto de 12 anos, franzino e solitário, vive um drama complicado de administrar. Os pais acabaram de se divorciar e, pra piorar a situação, ele sofre bulling de um trio de garotos que não lhe dá uma folga. Pois é bem nesse drama aí, de ficar esperando que o pai lhe faça uma visita, ou fugindo das brincadeiras de mal gosto dos companheiros de escola de índole duvidosa, que o guri acaba conhecendo uma garota da mesma idade, bem esquisita, a nova moradora do  apartamento ao lado. Esquisita para os outros, não pra ele. A empatia entre os dois, que se encontram no playground gélido do prédio de apartamentos, quase todas as noites, é forte por uma razão muito simples: a solidão, a simples falta de amigos, que no menino os motivos são meio obscuros, já que a situação de pais se separando não é, vamos dizer assim, um bicho de 7 cabeças ( bom, talvez fosse no início dos anos 80, época da ambientação do filme), porém em relação a menina há um motivo muito mais consistente: ela é uma vampira e não dá pra ficar estabelecendo vínculos de amizade, de repente, com o seu jantar, certo?

Sabe-se, notória e amplamente, via Internet, que Deixe-me entrar é o remake do filme sueco “Deixe ela entrar”, de 2008, que causou uma ótima repercussão internacional, considerado, na época, como uma fábula de horror romântica, dirigida  por Tomas Alfredson, baseado no livro de John Ajvide Lindqvist, que também roteirizou a película por aqueles pagos. Os produtores americanos, que costumam aproveitar-se de todos os sucessos estrangeiros cinematográficos para ganharem um dimdim a mais, deixaram o serviço de requentar o pão para Matt Reeves, diretor do criativo “Cloverfield”. Alguns dizem que a versão dele ficou no estilo americanizado muito comum de trocar seis por meia dúzia, outros argumentam que o remake, fiel às cenas originais, decorreu de bom senso: apesar de limitado, era o melhor a ser feito. Outros ainda alegam que o diretor, apesar das limitações, conseguiu botar o seu dedo criativo na feitura do filme. Fato é que eu não vi a versão sueca. Então, vou me reportar apenas à versão americana que, segundo os críticos, não faz feio à primeira de 2008.

A propósito, sobre o livro vale registrar o sucesso do mesmo em resgatar a áurea clássica do vampiro, mesmo que sob a figura de uma menina de 12 anos, trazendo de volta o status de horror e mistério que cercam estas fascinantes criaturas míticas da noite.

Pois bem, Deixe-me entrar vale cada centavo da locação. Gostei muito. É um bom filme, mas vai um aviso importante: não esperem um filme de vampiro cheio de efeitos especiais mirabolantes ou cenas de ação arrebatadoras no estilo de, por exemplo, a trilogia da Stephenie Meyer.  Há efeitos especiais, sim, porém usados de maneira econômica que dão direitinho conta do recado, embora percebamos os deslizes na rapidez da computação gráfica de CG em cenas com maior adrenalina. Mas isso nem de longe tira o brilho do filme. E também nem dá, assim, pra comparar com os vampiros purpurinados da Stephenie Meyer,  até porque, como já disse sobre o livro, o mito aqui é tratado dentro de suas tradicionais e irresistíveis características: a menina não pode ver o líquido vermelho que fica alucinada, não pode tomar sol, sofre um metabolismo físico medonho pela abstinência de sangue, e se não demonstra horror ao ver um crucifixo é porque nenhum padre ou caçador de vampiros lhe faz frente durante todo o filme.

E o filme tem, em minha opinião, elementos bem distribuídos de alguns gêneros importantes do cinema: o drama, o romance, o suspense, o policial, o horror, razão pela qual a narrativa transcorre sem pressa, num clima meio melancólico, embalado por uma trilha sonora discreta em cenários sempre gélidos dominados pela neve que se abate numa pacata cidadezinha, cidadezinha esta que vai conhecendo os seus primeiros crimes hediondos. Há um psicopata na cidade e há um policial bem desconfiado e competente que está no seu encalço. A fluência de ritmo é cadenciada, mas irresistivelmente envolvente. Lindo de ver! Os gêneros, reitero, são muito bem diluídos, permeados por explicações mais visuais do que verbais, uma vez que você é apresentado de forma direta, seca, sem muitos preâmbulos às cenas que, aos poucos, juntando uma aqui, outra acolá, vão formando o cerne dramático da vampirinha: ela não é má por natureza, é uma predadora, muito eficiente, diga-se de passagem, que necessita se alimentar. Azar de quem acaba se atravessando no seu caminho quando a fome aperta.


O casal de atores pré-adolescentes é muito bom, principalmente ela, com destaque à suavidade, à melancolia, o sorriso discreto e contido, expressos num rosto de menina comum, em contraste com o rigor dos traços duros da esfomeada por sangue ou a criatura lépida e mortal, na sua versão computadorizada, quando parte para o ataque.

Deixe-me entrar, para fechar a conta, tem boas cenas de suspense que podem chocar o público comum, atraídos pela sinopse romântica, quando o pai da menina vai à caça para trazer alimento para ela ou cenas de horror quando a própria, impaciente, precisa se virar sozinha.  Além disso, o clima intimista, focando mais as crianças, e deixando os adultos com espaços bem reduzidos de atuação, contribui para imprimir à narrativa visual um efeito perturbador. Vemos o garoto, aos poucos, enredado, empurrado para o lado escuro do sofrimento humano, empurrado para a garota esquisita pela simples ausência de amizades por outras crianças ou, o que é pior, pela falta de comunicação com a mãe. E este afastamento tem um peso psicológico importante nas estruturas sociais da vida real, que também costumam acabar em tragédias. O roteiro tem o mérito, entre as suas idas e vindas dramáticas, de não deixar transparecer a intenção da menina. Num certo ponto da narrativa, não sabemos se o interesse dela no menino é circunstancial ou há algo mais forte para se investir num relacionamento improvável. Há boas pistas para saber como as coisas podem acabar, mas você só tem certeza na última cena. Bom filme, como eu disse.


Comentários   

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