Resenha dos filmes homônimos "Lua Negra"

(2 votos, média de 5.00 em 5)

 

Vamos falar de dois filmes que, curiosamente, tiveram o título traduzido da mesma forma aqui em nossas terras: “Lua Negra”. Ambos tratam da boa e velha figura do lobisomem, ainda que de modo diferente.

O primeiro Lua Negra, uma produção americana de 1996, cujo título original é “Bad Moon”, teve a direção de Eric Red, roteirista de A Morte Pede Carona, e roteirista/diretor de Refém do Espírito. O filme é baseado no livro “Thor”, de Wayne Smith, e conta com as atuações de Mariel Hemingway, Michael Paré e Mason Gamble, na época um garoto de dez anos.

A história gira em torno do drama vivido por um fotógrafo que, juntamente com a namorada, é atacado por uma criatura sanguinária num acampamento. Mesmo tendo uma sorte diferente da mulher, ele não escapa ileso da investida e se vê obrigado a carregar um terrível fardo em forma de maldição. Ele tenta a todo custo se livrar do mal que o acompanha a cada anoitecer ( uma particularidade desse lobisomem, qualquer lua é capaz de incitar a transmutação ), mas todos os meios acabam se mostrando inúteis. Por fim, convencido de que só o amor da família pode lhe dar algum alento e, quem sabe, até mesmo curá-lo, ele decide procurar a companhia da irmã e do sobrinho.

O pastor alemão da família, Thor, imediatamente reconhece a sombra diferente que rodeia o estranho e passa a vigiá-lo. O homem sabe que o animal identificou a fera por trás de sua aparência humana e, a partir daí, surge uma disputa velada entre ambos pelo território. Rejeitando a própria condição, o amaldiçoado insiste na tentativa de domar o apetite insano da fera interior, mas, lentamente, começa a perceber que a besta passa a dominá-lo cada vez mais e, resignado, se entrega a ela completamente. Dois fatores mostram-se determinante para isso: a certeza de que nem mesmo o amor da família se revela capaz de curá-lo, e a constante perseguição por parte do cachorro. Esse fato, em especial, faz crescer ainda mais o ódio que ele nutre no coração. O instinto animal passa a falar mais alto, mas ele não abre mão do raciocínio humano e, astutamente, lança os holofotes das suspeitas sobre o cachorro, cujo temperamento agressivo se fez notar em algumas ocasiões.

Nessa altura, a influência do lobo sobre a parte humana já é total, e a criatura já não faz nenhuma questão de poupar a vida daqueles que atravessam seu caminho, nem mesmo a da família. E, tendo o caminho livre por conta da captura do inimigo canino, ele resolve agir. O curioso é que o amor e a revolta do menino, que o levam a tentar reverter a situação do injustamente acusado amigo, acabam se fazendo fundamentais para si mesmo e para a própria mãe. Ele, incondicionalmente, procura ajudar e, em contrapartida, é beneficiado pelo ato.

O desfecho caminha para um inevitável confronto, onde a condição de melhor amigo do homem é posta a toda a prova, e o final se mostra totalmente imprevisível.
Apesar dos efeitos especiais apenas razoáveis ( aqui levamos em consideração o ano de 1996 ) definitivamente Lua Negra ( Bad Moon ) é um excelente filme de lobisomem. Nele, a tão maltratada figura licantropa recebe seu devido valor. O enredo, as atuações, a fotografia (destaco a cena da criatura se esgueirando no jardim da residência ) são tão convincentes que a qualidade dos efeitos (que não são ruins em hipótese alguma ) fica em segundo plano.


O segundo Lua Negra, do original “Dark Moon Rising”, é uma produção mais recente, também americana, de 2009. O filme conta com a direção de Dana Mennie, e com as atuações de Max Ryan, Chris Divecchio, Ginny Weirick, Maria Conchita Alonso e Chris Mulkey.

A trama se desenrola, inicialmente, sobre a paixão avassaladora que uma jovem, de uma cidadezinha interiorana, desenvolve por um forasteiro. A garota, interpretada por Ginny Weirick, procura ostentar uma aparência de modernidade, principalmente diante das amigas, mas no fundo não passa de uma sonhadora. E, em contrapartida, o rapaz ( Chris Divecchio ), carrega uma sina que o obriga a viver como um nômade, tendo um rastro de sangue a acompanhá-lo.
Rapidamente, as suspeitas recaem sobre o estranho, principalmente as que partem do pai da menina, um típico cowboy interpretado por Chris Mulkey, que, por sua vez, vive um romance com a xerife local (Maria Conchita Alonso). O sujeito se vale de todo tipo de ameaça para intimidar o garoto, sem conseguir, no entanto, o efeito esperado.

O amaldiçoado não aceita a própria condição e se sente, a todo o momento, inconformado pela triste sina. Embora desconheça o porquê de ter sido escolhido para carregar semelhante fardo, ele tem plena consciência do que faz e do que deixa de fazer ( uma característica específica dessa fera que, em nenhum momento, perde a sensibilidade humana ). E é justamente por isso que ele fica intrigado quando vítimas humanas começam a surgir bem próximo de sua área de atuação, uma vez que a sua consciência o impede de consumir a carne das pessoas.

Com o auxílio da namorada, ele pede ajuda a uma especialista a fim de entender a própria natureza. Ciente da ameaça que ronda a localidade, e do que fazer para detê-la, pela primeira vez ele se vê diante de uma certeza, algo que motivará a fúria da besta em favor da vingança.

Em paralelo, as suspeitas da xerife, de que uma criatura anormal é a responsável pelas atrocidades, se confirma com o surgimento de um enigmático policial de outra cidade, que traz consigo experiências próprias sobre o mistério. A partir daí, todos se unem para combater a ameaça que promete não descansar até cumprir a tarefa que lhe cabe.

A trama poderia até funcionar, pois não é ruim, o problema foi o modo como compuseram o filme. A começar pelas cenas curtas e soltas, com diálogos pouco explorados, numa clara tentativa de instigar a curiosidade até a explicação final. Porém, o único resultado que se obtém é a total confusão por parte do espectador, que fica, em vão, tentando encontrar um mínimo de lógica na sucessão de cenas desconexas.

Outro ponto negativo é a própria aparência da criatura. Não falo de efeitos especiais não, apesar de que um filme de 2009 mereceria coisa melhor. O problema é a concepção do lobisomem. Não sei qual era o objetivo da produção quando idealizaram a figura, mas o resultado beira o ridículo. As características lembram, e muito, os trejeitos de uma criatura simiesca, não lupina. Até mesmo no modo de andar, gesticular e interagir. Quando vi o lobo pela primeira vez, imediatamente me lembrei do personagem Chewbacca, da série Guerra nas Estrelas. Sem falar de um agravante: as calças rasgadas, que remetem ao Hulk, passam longe do glamour estereotipado no clássico O Lobisomem, de 1941. Continuando com o erro total, que arrasou com o orgulho do Demônio da Lua Cheia, o uivo, que deveria ser um sinal claro de presença e horror, confunde-se com os silvos emitidos pela personagem Hermione Granger, de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, quando esta tentava chamar a atenção do lobisomem/professor Remo Lupin. Para completar, não posso deixar de mencionar a transmutação propriamente dita. Não tem o que tirar daquele efeito com espelhos que observamos na atração da mulher-gorila num parque de diversões qualquer. A sensação que experimentamos é a mesma, uma passagem rápida e pouco significativa de humano para fera.

Além da montagem errada das cenas, da exploração insuficiente do potencial do enredo, dos equívocos na caracterização da criatura, as atuações, também, não convencem em nenhum momento. O casal principal não consegue transmitir uma cumplicidade que possa criar identificação com o espectador. E não para por aí. Tanto o pai da menina, quanto o vilão da história, transpiram superficialidade. O ar misterioso que Billy Drago tenta impor em seu personagem parece ter sido inspirado no xerife Wydell ( William Forsythe ) de Rejeitados pelo Diabo, porém passando longe disso. Sem contar que forçam a barra para que a personagem de Maria Conchita exale sensualidade. Não sei se foi um artifício da própria atriz, ou uma característica que estava no roteiro, o que posso dizer é que o resultado foi pífio.

Na reta final, o que deveria ser uma maldição inoportuna e sofrida, acaba por revelar-se como um recurso na infinita disputa entre o bem e o mal. Inexplicavelmente, a lua passa a ser uma mera coadjuvante (sem entrar em muitos detalhes para não estragar, mas é só prestar um pouco de atenção na linha de raciocínio desde o início para entender).

Obviamente, que não há uma regra na concepção de uma figura tão complexa quanto um lobisomem. A liberdade está aí para ser aproveitada. Mas, particularmente, acho um desperdício e quase uma afronta negar ao demônio as necessidades básicas de seu instinto. Há quem possa gostar de um lobo, digamos, mais polido. Eu não gosto. E não gostei de quase nada de Dark Moon Rising. Digo “quase” porque até que a trilha sonora é bem agradável e se encaixa com a ambientação do filme. Mas isso é muito pouco para salvar a produção. E, mais uma vez, o pobre lobisomem sofre nas mãos da Sétima Arte.

É isso aí!

 


Comentários   

#4 isabela » 27-05-2013 11:33

maluco esse filme e o bicho :D
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isabela

#3 Dani » 06-07-2012 00:58

Eu assisti o segundo filme a poucos minutos, pensando ser o primeiro. Assisti pelo tele cine action, e até eles colocaram a sinopse do filme errada, colocaram a sinopse do " Bad Moon", mas passaram “Dark Moon Rising”. Dá pra acreditar?!?!? Valeu a resenha dos filmes, agora vou assistir o outro.
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Dani

#2 Lino França Jr. » 17-05-2012 23:03

O Brasil é "campeão" em dar títulos esdrúxulos aos filmes estrangeiros. Além disso, vez ou outra consegue dar o mesmo nome para dois filmes diferentes.

Não conhecia o segundo filme, Flávião, mas baseando-me na sua resenha (e no seu bom gosto), não farei questão alguma de assisti-lo...rs.
−2 +−

Lino França Jr.

#1 Tânia Souza » 16-05-2012 15:52

Flávio, ótima leitura comparativa, eu vivia confundindo os filmes, e assisti um pensando ser o outro, lendo suas resenhas, fato é que está mais do que na hora de ver Bad Moon. Valeu.
−1 +−

Tânia Souza

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