Resenha de filme: Segredos Mortais

(2 votos, média de 5.00 em 5)

Direção: Pupi Avati

Título original: L’arcano incantatore

Ano de produção: 1996

País: Itália

 

Sinopse:

Após um escândalo de aborto, seminarista se afasta do clero e - em fuga - faz um juramento de sangue com uma seita secreta que promete lhe revelar mistérios proibidos e esotéricos. A fim de se resguardar, assim como parte do pacto, decide trabalhar como bibliotecário em uma mansão campestre habitada por um padre excomungado cujo antigo assistente foi morto em circunstâncias misteriosas. O mistério se adensa quando sons e supostas aparições passam a sugerir uma ligação com o desaparecimento de duas jovens, oriundas de uma misteriosa comunidade de freiras próxima à mansão.


Crítica:

Pupi Avati é um daqueles casos curiosos: diretor de prestígio e respeito no mainstream cinematográfico italiano, especialista em dramas e comédias dramáticas, mas que (ocasionalmente) se aventura pelo thriller horrorífico e cinema fantástico, e o faz com uma leveza de toque, literacy e finura psicológica dignas de um Tourneur ou Polansky.

O popular Dario Argento, certamente um diretor mais influente e dono de uma sensibilidade mais urgente e “moderna”, é geralmente considerado o sucessor do mestre Mario Bava; porém, vejo o Avati como seu grande herdeiro estético e espiritual; na verdade é um dos poucos diretores a honrar a (quase) extinta estética (e filosofia) gótica, em especial em sua predileção para variações tonais e senso do trágico, dramático e atmosférico. Vale também ressaltar sua ênfase às nuances emocionais e estados d’alma (elementos que lamentavelmente andam em baixa no cinema fantástico).


De uma linhagem que remonta aos primórdios do cinema fantástico, seu quiet horror é a arte das meias palavras e segredos inconfessáveis, de silêncios denunciadores (e atormentadores) desenhados em piscares de olhos e expressões faciais, e do passado que volta para assombrar o presente. Paralelismos e a interdependência entre o literal e o metafórico, dito e não dito, passado e presente, interno (psicológico) e externo, são tão presentes quanto ambiguidades e elipses (linguísticas e visuais): o storytelling é alternado entre o visual e textual, visível e invisível (entrelinhas). De certa maneira seu cinema é uma tirada de chapéu à arte “muda” e elíptica de mestres como Jacques Tourneur e Bryan Forbes.

Sua obra prima, ‘A Casa das Janelas Sorridentes’, me parece o filme que melhor demonstrou sua filosofia cinematográfica, mas mesmo em thrillers contemporâneos mais “americanizados” como ‘Il Nascondiglio’, fica evidente sua profunda sensibilidade gótica assim como seu respeito e admiração pela tradição.

‘O Arcano Encantador’ é um filme profundamente Avatiano – sem dúvida o mais gótico de todos –, mas também com uma proposta estética diferenciada de seus filmes mais conhecidos. Artista sensível e refinado que é... aqui ele exercita sua câmera “Bavesca” com a habitual deliberação, leveza de movimento e perfeito controle autoral, mas com uma riqueza de textura e profusão de detalhes, distantes daquele diretor de estilo “limpo” e (visualmente) econômico a que estamos habituados. O que poderia ser uma crítica na verdade é uma observação e elogio, pois ele parece praticar a golden rule: um bom estilo é um estilo adequado ao fim a que se destina. E que estilo; nada durante seus noventa minutos me parecem supérfluo e gratuito: do uso do som ao constante play entre diálogos e imagens (literais e metafóricas), Avati constrói uma obra sólida e muito bem amarrada, mas que, pela sua abordagem narrativa deliberadamente oblíqua e ambígua, nem sempre de fácil compreensão e interpretação (quem leu algum quadrinho cujos desenhos operam mais como ferramenta complementar de storytelling que recurso [meramente] ilustrativo sabe do que estou falando).


Estas “exigências”, por si só, já seriam suficientes para uma segunda releitura, mas como não rever uma obra com tão bonita fotografia de melancólicos tons outonais e cuidadosa direção de arte? Como não reapreciar, como em toda obra gótica que se preze, o tom dramático e sombrio de incompreensível tragédia eminente, ou seu senso de temor lovecrafteano (?): mais fiel ao mestre que a (quase) totalidade das opacas adaptações cinematográficas.

Escadas espirais, bibliotecas seculares, tomos misteriosos, morte, poeira, danação, hipocrisia, blasfêmia, morbidez, especulação metafísica, demonismo, sexualidade reprimida e imagética gótica magnificamente fotografada e executada, constantemente nos instiga, intriga e fascina. Não, não se trata de uma superprodução, mas um filme de orçamento (comparativamente) modesto com um supertalento – que visivelmente gosta do que faz – por trás das câmeras.

Apreciador de efeitos atmosféricos e pirotecnias com som ambiente e iluminação artificial que sou, dá gosto ver um diretor contemporâneo manipular com tanta habilidade essa arte moribunda; mesmo o CGI é usado com economia e bom senso, sem diluir o clima claustrofóbico e sufocante da obra. Aliás, neste quesito lembrou-me a obra prima do Mario Bava ‘Operazione Paura’: a partir de um material relativamente “limitado”, Avati constrói um “universo fechado” tão detalhado, pessoal, claustrofóbico e misterioso como o vilarejo de “Operazione”, e assim como ele, sufocante em seus segredos e silêncios, mesmo nas cenas externas – e que “olho” para o bucólico e pictórico esse Avati tem.

O Arcano Encantador se beneficiaria com uns vinte minutos a mais – por vezes sua narrativa me parece demasiadamente comprimida -, mas em sua hora e meia, cativa, perturba e nos deixa uma profunda impressão. Cinema fantástico feito com gusto e tesão.

Nota: 9,5

Comentários   

#5 Paulo » 22-02-2016 20:28

Cheguei a comprar o VHS original na versão dublada e ainda deve estar guardado em algum lugar por aqui.
Pra quem queria aqui vai um link ativo.

lordevelho.tumblr.com/.../...
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Paulo

#4 Tamires » 25-08-2015 07:17

Eu assisti esse filme com uns 10 anos de idade mais ou menos, e nunca mais esqueci. Gostaria de assisti-lo novamente, alguém sabe onde encontrar?

Abraço
+1 +−

Tamires

#3 Diego Telles » 02-12-2013 20:28

Assisti este filme em 1999... eh maravilhoso!!!
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Diego Telles

#2 Tânia Souza » 24-11-2012 12:00

Fiquei impressionada, vou tratar de assistir e logo.
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Tânia Souza

#1 israel augusto furtado santos » 17-11-2012 22:39

uma resenha tão bem escrita dá até vontade de assistir ao filme. 8)
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israel augusto furtado santos

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