Resenha filme: O 4º homem

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Título original: De Vierde Man

Ano de produção: 1983

Direção: Paul Verhoeven

 

Sinopse:

Escritor alcoólatra, perturbado por ideias e visões da morte, viaja para uma palestra e se envolve com uma cabeleireira cujo amante acaba por despertar seu ciúme e interesse.

 

Crítica:

Primeiro uma confissão: mesmo com ótimos filmes no currículo como “Robocop” e “O Vingador do Futuro”, nunca dei muita bola para o Verhoeven como artista; não fosse um lampejo de curiosidade, esta pérola da fase holandesa continuaria em meu limbo cinemático ad infinitum.

Safado do Verhoeven; não vou dizer que seus filmes hollywodeanos escondiam totalmente o jogo, pois ficava evidente o quão vigoroso e energético ele era, mas jamais imaginaria que seria capaz de criar obras tão ousadas, contundentes e intelectualmente estimulantes como esta. Estou me referindo ao modo como ele incorpora elementos do cinema de gênero e os subverte sem comprometimento da fluência narrativa, como o David Lynch fazia em sua primeira fase, antes de mandar o enredo à casa da Mãe Joana em filmes pós “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer”.


E não é que este filme caberia como uma luva na filmografia Lyncheana? Vejamos: aquele tom soturno – quase lúrido -, entremeado por um senso de estranheza e atmosfera de desespero e pesadelo; uma tendência para o “choque” e sensacionalismo com um pé no real e outro no escandaloso, visionário e (quase) surreal.

Se no cinema do Lynch o simbolismo é manejado com certo comedimento, aqui é vomitado garganta abaixo sem dó nem piedade; uma técnica crua, mas eficiente na criação da sensação de desconforto, em especial quando o diretor sobrepõe imagética gótico-católica com sexual: prato forte, mas instigante. Mas ele vai além, pois trata o catolicismo e a bissexualidade do escritor Gerard Reeve – o filme é baseado em um romance autobiográfico – como complementares e seu fervor religioso como um sintoma – ou consequência - da esquizofrenia.

Interessante notar como alguns elementos foram incorporados no ótimo, mas inferior e comparativamente comportado, Instinto Selvagem: A femme fatale misteriosa, a pegada noir, o clima intenso de sensualidade e erotismo. Não... Não tem a Sharon Stone nem a cruzada de pernas... e nem precisava, o filme vai...além...

Com um roteiro inteligente e literato, cenas fortes, mas estilosas e criativas; uma queda para o choque e sensacionalismo barato, poderia se dizer que “O Quarto Homem” é uma original e inusitada fusão de mistério noir, suspense, horror visionário e exploitation, mas prefiro encará-lo como um fascinante estudo psicológico de uma mente profundamente perturbada. Correção: safado do Verhoeven: estava escondendo o jogo... mesmo.

 Nota: 9,5

 

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