Resenha: A Maldição da Caveira

(1 voto, média de 5.00 em 5)

 

A Maldição da Caveira (The Skull, 1965)

 

Sinopse:

Ocultista acadêmico rouba o crânio do Marquês de Sade de um vendedor de má reputação, inconsciente de sua influência maléfica e poderde despertar impulsos assassinos. Um amigo lhe alerta para os perigos, mas aos poucos sucumbe à influência da caveira.

 

Crítica:

Partindo de uma premissa absurda – mesmo se tratando de cinema fantástico –Freddie Francis transmuta o que era para ser um espetáculo nonsense de surrealismo involuntário em um, digamos, maravilhoso espetáculo nonsense de surrealismo involuntário – e voluntário – com quilos de estilo, criatividade e atmosfera.

Diretor competente e profissional (mas nunca autoral), este extraordinário (e oscarizado) cinematógrafo tem no currículo filmes bacanas como Paranóicoe – como diretor de fotografia, entre outros – o estupendo Os Inocentes (com todo respeito ao Jack Clayton, não imagino o sucesso artístico deste filme sem as lentes e iluminação do Francis).


Não quero passar a impressão de uma obra sem defeitos (na verdade o recomendo com reservas): peca por sérios problemas de roteiro, ritmo espasmódico e excesso de exposição, mas, assim como Operazione Paura do Mario Bava, é um triunfo da imaginação face às restrições orçamentárias. Não me recordo de nenhum filme inglês de horror feito na mesma época com uma abordagem tão inusitada: após sessenta minutos “relativamente” convencionais, o filme joga o espectador em um elíptico, delirante e Bavaesco exercício de estilo e atmosfera, praticamente desprovido de diálogos e pontuado maravilhosamente por uma trilha sonora avant-garde; o efeito – pela justaposição de imagética low-brow, iluminação surreal, elipses e “música de câmara” – é meio desconcertante, próximo ao de um curta-metragem semiexperimental (algumas tomadas foram feitas de dentro da caveira!). Doses de ambiguidade entram na equação, talvez reforçada pela fragilidade e extensão reduzida do script; se o diretor se viu obrigado a esticar o filme com longas passagens desprovidas de diálogo, conseguiu admiravelmente (boas soluções às vezes nascem de restrições).

Mesmo sem estas qualidades, a dupla Lee e Cushing já seria suficiente para sustentar o interesse do connoisseur, e pouco importa o quão fajuto é o efeito da caveira flutuante presa (provavelmente) por um fio de nylon.

Estiloso, sutil, cheesy, ambíguo, surreal, errático, moroso, criativo, espasmódico, comedido, (ocasionalmente) perturbadore menos verboso que eu, A Maldição da Caveira não é “aquele” filme, mas, assim como o crânio do Marquês, um curioso artefato para curiosos e colecionadores.

Nota – 8,5

Comentários   

#2 Ramon Bacelar » 12-08-2013 10:42

Edward Gorey, junto com o Jan Svankmajer, é um dos genuínos absurdistas e dos meus prediletos. Sempre achei o surrealismo (e afins) a mais eficiente forma de expressão para falar da nossa realidade.
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Ramon Bacelar

#1 Fábio Silva » 13-07-2013 23:35

Me fez lembrar de um artista que usava o nonsense e o surrealismo como ninguém em situações macabras, o tal de edward gorey. E sempre tenho em mim que o surrealismo e o nonsense são formas mais malucas de um escritor, pintor, seja lá o que for, dizer algo bacana, mesmo o resultado não sendo o esperado.
+1 +−

Fábio Silva

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