Resenha: Beijo com Beijo - Histórias Fantásticas (Roald Dahl)

(1 voto, média de 5.00 em 5)

 

A biblioteca, de uma das escolas publicas onde exerço o hercúleo labor de docente, já me presenteou com um número considerável de obras magníficas (assim como a pública da minha querida Não-Me-Toque). Lá encontrei Machado de Assis, Poe, Tchekov, Maupassant, Fernando Pessoa, Ítalo Calvino, Umberto Eco, Tolstoi, Oscar Wilde e muitos outros monstros da literatura mundial. Pois não é que, chafurdando nos volumes que lá estão, mais uma vez, encontro um tal de Roald Dahl. Nunca ouviram falar? Pois este britânico nascido em 1916 e falecido em 1990 é o autor de um clássico, mais conhecido aqui entre nós pela adaptação cinematográfica. Estou falando de “A fantástica fábrica de chocolate”.

Bem, Dahl também é conhecido por outras inúmeras obras, mas quem quiser conhece-lo melhor, ou um intróito mais detalhado de sua vida, corra até o wikipédia. Meu intuito aqui é falar de uma obra incrível deste senhor, publicada por duas editoras em terras tupiniquins. Cada uma com títulos levemente distintos. “Beijo” e “Beijo com Beijo”. Este, senhoras e senhores, reúne 11 contos fantásticos (com toda a licença poética que quiserem emprestar ao termo) de uma originalidade ímpar. O estilo de Dahl é peculiarmente habilidoso, assim como é o de todos os bons escritores, com cada qual guardando a sua assinatura inequívoca. Todas as histórias tem um elemento em comum: o desfecho nada óbvio e (umas mais outras menos) uma lição interessante. Mais uma vez, coisa que só os mestres são capazes, não é mesmo? Pois bem, vamos a elas.

William e Mary -  Trata da remota necessidade do ser humano em perenizar-se, e, assim, considerar, se não todas, pelo menos um numero significativo de conjecturas antes de aceitar essa possibilidade. Um médico propõe à um amigo, que está a beira da morte, uma técnica bizarra (e quem pode negar com veemência que um dia não a teremos disponível?) que lhe garante a existência depois que seu corpo sucumbir à doença. Adendo: a relação matrimonial do enfermo é crucial no desenvolvimento da trama e, penso eu, na essência da idéia central. Por isso o título.

Geléia Real garante o suspense ao propor que o leitor comece a investigar as ilações possíveis entre a paixão incomum nutrida, da parte de uma das personagens, por abelhas, e os desenrolar da narrativa, que está amarrada incondicionalmente às respostas que pretendemos encontrar durante o curso da leitura. Este conto realmente subverte as leis naturais da biologia, como a conhecemos.

Edward, o conquistador. Confesso que não consegui relacionar o título com a história. Sinceramente ainda me esforço para contextualizar a idéia, mas me falta sabedoria suficiente. Em todo caso, aqui temos outro tema caro à humanidade. Reencarnação. Uma esposa, depois de uma série de coincidências ,garante ter a prova irrefutável deste dogma central para muitas religiões. Ao expor as evidências para o marido, o Edward do título, este refuta o pressuposto da consorte, com argumentos simples e lógicos. Mas a tal não se convence com estes, e passa à obsessão daqueles que acreditam mesmo sem nenhuma, que seja, evidência concreta para sustentar suas conclusões. Num dado momento, Dahl nos sugere que a esposa é vítima de algum trauma, num dialogo com Edward, o que abre espaço para conjecturarmos sobre sua sanidade. Ao final, uma medida radical, e cruelmente simples, acaba freando todo o entusiasmo da senhora .

O Caminho para o Céu. A sra. Foster sente um terror inominável à simples idéia de atrasar-se para qualquer compromisso que seja. Em outras situações, lidava tranquilamente com os fatos, mas o atraso era algo incalculavelmente amedrontador. Com esta premissa, Dahl nos convida a acompanhar o desfecho inusitado, cercado de ironias, de um conto que leva-nos a pensar até onde é possível negligenciar as dificuldades, aparentemente sem importância, que as pessoas tem em relação a certos detalhes da nossa vida. Considerar exagero a atenção diligente que alguns seres-humanos emprestam àquilo que consideramos prosaico, e fazer troça, mesmo que elegantemente, de tal fato, pode ser a última coisa que você fará na vida.

O prazer do vigário. O quão inteligente, caro leitor, se achas? O quão sábio, levando em consideração a dicotomia presente nos conceitos de inteligência e sabedoria? Quão confiante és em função do suposto privilégio intelectual que detém, ao lidar com a multidão ignara, que nada sabe realmente sobre as tramas da convivência? Posso estar errado, mas todos nós pensamos pernosticamente quando lidamos com aqueles que consideramos, sabe-se lá por que, menos dotados cognitivamente. Mas aqui, neste conto, Dahl nos puxa a orelha intensamente para tal comportamento! Um comerciante de antiguidades, travestido de cura, vive a engambelar incautos que, considera ele, nada sabem sobre o valor de algumas obras-primas que possuem em casa. Sua retórica é certeira, e assim o vigário avança lesando um sem número de indivíduos país adentro. Mas, num dos finais mais incríveis que já pude ver num conto, para seu azar, quando encontra o paroxismo das antiguidades, é vítima (você irá rir muito, caro leitor) da sua própria esperteza. Ser (ou achar-se) muito inteligente, ou esperto, ou sábio, ou o nome que quiser dar a isto, pode ser desagradavelmente surpreendente.   

A senhora Bixby e o casaco do Coronel. Uma esposa insatisfeita com a rotina. Desanimada com a limpa apatia do marido certinho. Sabem no que isso vai dar, não é mesmo? Pois então. A sra. Bixby há muito mantem um relacionamento extraconjugal com o Coronel. Encontram-se uma vez por mês. Tudo as mil maravilhas. Sem rotina. Sem posturas inerentes à instituição chamada casamento. Muito bom. Mas, de repente, sem aviso, o Coronel termina tudo, deixando-a com um lindo presente. Vison! Um legitimo casaco de pele! Agora, amigo que segue este blogue, toda a narrativa adquire um ritmo delicioso, que faz-nos abrir aquele sorriso (se você for homem, como o inicio do conto nos prepara) ao tentar descobrir quando seremos vingados! Sim, isso mesmo! Mais uma vez, Dahl nos mostra que achar-se mais esperto que os demais pode ser desapontador.

A senhoria. Um rapaz chega numa pequena cidade, a negócios. Procura uma pensão para passar a noite. Lhe indicam a mais próxima da estação. Boa e barata. Antes de encontrá-la, vê-se flertando com outra, no caminho. Amigos e amigas, agora o autor emprega elementos na trama que insinuam um casamento entre a realidade assustadora da loucura e as especulações angustiantes de um mundo invisível aos nossos treinados sentidos. Sim. À medida que avançamos a leitura, nossas certezas são postas em xeque, pois somos obrigados a colocar o que parece óbvio frente a detalhes que sugerem uma situação nada ordinária. Bem, ao menos eu fiquei, aliás estou, tentando definir o que era aquilo tudo, além do que pareceu ser!

George, o puro. Um servo de deus que vive às voltas com as investidas nada sutis de uma turba de solteironas decididas a lhe corromper. Interessante a digressão obrigatória que Dahl emprega para explicar-nos a aparente ojeriza do cura às mulheres. Mais ainda é o método usado por este para entender, e confirmar, a natureza lasciva das mulheres. Um achado! Somos levados, ao final, em uma narrativa vertiginosa que mistura reminiscências da personagem principal ao seu teste máximo! Parece que Dahl está nos perguntando até onde nossas relações, em quaisquer níveis, podem determinar aquilo que somos, e aquilo que nos tornaremos.

Gênese e Catástrofe - Uma história verdadeira. Isso mesmo! Uma realidade que, acho, poucos conhecem, sobre o nascimento de uma dos maiores monstros que a humanidade já conheceu. Você até se compadece com o coitadinho durante a história. Talvez seja a maneira, penso deliberada, de Dahl mostrar como somos humanos até mesmo com a maldade pura que, todavia, ainda nem nasceu.


O campeão do mundo. Dois amigos vivem a arquitetar a melhor maneira de surrupiar uma certa raça de aves, muito apreciadas pelos paladares daquela região. Como fazer para capturar o maior número possível? Qual o melhor método? Depois de conjecturas e fatos do passado paterno de uma das personagens, pensam ter descoberto a roda desta empresa! Bem, daí por diante é só torcer pelos larápios e rir muito com o final !

Porcos. Um órfão é criado por uma tia vegetariana que, volta e meia, lhe alerta sobre os problemas de consumir carne. Este é dotado de talento impar na cozinha, e logo se mostra um gênio nesta arte. Quando a tia falece, lhe deixa uma herança substancial que precisa ser retirada na cidade grande. Viviam, até então, isolados ao sopé de uma montanha, criando animais e cultivando vegetais. Excelente a rápida aparição do advogado responsável por deter os papeis da herança e seu papo para reduzir a uma quantia ofensiva o que antes era uma soma impressionante! Você vai rir e ficar com raiva ao mesmo tempo. Bem, ao menos eu fiquei. Daqui pra frente, o conto começa a mostrar a que veio, e o que parecia uma história sem muito a oferecer, torna-se uma angustiante viagem à um lugar surreal, com uma parada necessária em uma lanchonete, para que nosso órfão soubesse do que se tratava. Senhoras e senhores, irão desejar que Dahl pare ali mesmo de escrever, ao perceberem o absurdo que irão enfrentar. Posso estar exagerando, mas os Porcos do título ainda estão por aqui. Em nosso prato. Nos supermercados. Nos açougues. Gritando. Se você não mais os ouve, depois deste conto o fará.  

Bem, galera, é isso aí. Quando a oportunidade surgir (para, claro, aqueles que ainda não a tiveram) agarrem-na! Não deixem Dahl passar em branco! Se você curte Litfan, é um presente em tanto! 


Comentários   

#4 Samuel Caetano » 25-04-2017 11:02

Nunca li contos tão perfeitos e maravilhoso, que nos fazem refletir, dar gosto por te lido! E o melhor de tudo, é que o conheci por indicação do mestre Stephen King, outro monstro espetacular na literatura! Devoro as obras de King e fico muito feliz pelos livros que o mesmo nos indica!!! SENSACIONAL!!!
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Samuel Caetano

#3 Pandora » 13-04-2016 15:16

Estou apaixonada por este livro. Apaixonada, apaixonada.
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Pandora

#2 Ramon Bacelar » 09-08-2011 16:51

Esse é um daqueles clássicos traduzidos para o portuga que frequentemente passa desapercebido, mas quem lê não esquece. Dahl aperfeiçoou e elevou o conto irônico de final surpresa para um patamar de obra de arte.
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Ramon Bacelar

#1 Elsen Filho » 09-08-2011 11:48

Bela resenha, caro Victor, já estou curioso para ler.

Tomara que as bibliotecas públicas aqui de Hellcife sejam tâo ricas quanto as de Não-Me-Toque.
+1 +−

Elsen Filho

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