Resenha: Guy de Maupassant

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Guy de Maupassant é sempre muito bem-vindo.  Portanto, vale  à pena mergulhar na pequena  coletânea, que leva o nome do escritor, publicada recentemente pela editora “Artes e Ofícios”.

O  livro reúne quatro  narrativas do genial contista francês, três das quais merecem a nossa referência, por navegarem nas enigmáticas   águas do fantástico.

A primeira delas – “O  Horla” –, já ganhou, aqui na Irmandade, uma resenha exclusiva,   e muito bem feita,  de  Ramon Bacelar,  o que nos dispensa de tecer   maiores considerações.  Trata-se de um dos mais famosos contos de Maupassant.  De fato, subjugados pela  verossimilhança do fio narrativo,  somos  induzidos a viver, como se nossa fosse,   a intensa e progressiva loucura do personagem-narrador...  Loucura?  Ou, de fato, uma terrível experiência...  sobrenatural?

A obsessão e a alienação mental –  ou, quem sabe, o sobrenatural  mais agônico e enlouquecedor  –  permeiam  também uma outra  obra-prima, bela e assustadora: “A cabeleira”.  Interno num manicômio, um colecionador de antiguidades  relata  a degeneração da razão e da  sensualidade reprimida.  E tudo  a partir da descoberta de uma  cabeleira de mulher... Segue-se  uma arrebatadora paixão,  uma obsessão ensandecida  pelas longas madeixas douradas  e, por extensão,  pela enigmática mulher, já  secularmente morta, que um dia as ostentou.   Mas, o que parecia ser apenas o nefasto produto de uma mente perturbada, bem que poderia ser...

A mão”  – certamente uma reelaboração  de “A mão dissecada” (“Mestres do Terror”, Ed. Edizer, p. 63-68) –   testemunha  a impecável técnica  narrativa do maior dos discípulos de Flaubert: o inconcebível  e o sobrenatural afloram num ambiente rigorosamente realista.  Um respeitável  magistrado, cuja  credibilidade não pode ser posta à prova, narra, com asséptico ceticismo,  as estranhas circunstâncias de um crime absurdo,    insuscetível  de esclarecimento pelas leis inflexíveis  que governam a razão.  Afinal, não se admite que  possa uma mão mumificada...

A edição vale, também, pelo excelente projeto gráfico e pelas ilustrações, de autoria de Juliana Dischke, que também desenhou a capa.  E há outra excelência: à exceção do revisor e de um dos tradutores, todo o trabalho é produto de hábeis mãos femininas.  Daí o primor da edição.

 

GUY DE MAUPASSANT


O HORLA. A CABELEIRA. A MÃO. O COLAR.

Editora Artes e Ofícios.
Ano de publicação: 2011.
Organização e apresentação: Paola Felts Amaro e Adriane Sander.
Coordenação editorial: Elaine Maritza de Oliveira
Tradução: Paola Felts Amaro, Adriana Sander, Gustavo Azambuja Feix, Paula Fernanda Malaszkiewicz e  Joice Monticelli Furtado.
Capa e ilustrações: Juliana Dischke.
Número de páginas: 111.
Local de Publicação: Porto Alegre/RS

Comentários   

#2 Ramon Bacelar » 20-08-2011 14:32

Dentre os muitos fascínios Maupassaneanos, um dos que mais tem me intrigado é o caráter "autobiográfico" de sua obra contística.
Seus contos de horror em especial, parecem suplicar - ou berrar - para o leitor um desespero e angústia intensos, um pedido de socorro escondido nas (entre)linhas de seus maravilhosos textos.
A sensação de impotência e vulnerabilidade nos são passadas com incrível realismo psicológico, não apenas pela sua 'feiticaria literária", mas também por sabernos que nós estamos tão expostos as mesmas moléstias orgânicas, culturais e sociais que ele. A literatura como espelho.
Reler Maupassant nunca é demais.
+1 +−

Ramon Bacelar

#1 Lorde das Sombras » 20-08-2011 02:29

Eu li num site, não lembro qual, faz tempo, que o Maupassant tinha três versões de O Horla. Uma bem curta, outra mais longa e uma outra, nem longa nem curta, esta última foi uma versão mais revisada e modificada e que ficou sendo a "oficial".
−1 +−

Lorde das Sombras

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