Resenha de livro: The White Hands and Other Weird Tales - Mark Samuels

(4 votos, média de 5.00 em 5)

 

The White Hands and Other Weird Tales – Mark Samuels – Ed. Tartarus Press (130 pp)


 

 Fazer um levantamento e garimpagem, na história do fantástico literário (gótico, horror, weird fiction etc.), de autores importantes e/ou representativos – sejam eles ‘criaturas de gênero’ ou ‘outsiders’ vindos das previsíveis, porém seguras águas do mainstream literário, pode ser uma tarefa árdua e ingrata. Não... Não me refiro aos suspeitos habituais: Hoffmann, (M.R.) James, Poe, Lovecraft, Stoker e Shelley estão em catálogo e com as reputações literárias garantidas (embora tenha minhas dúvidas se nosso Gentelman of Providence ultimamente tenha descansado em paz tamanha a quantidade e ‘qualidade’ dos inúmeros pastiches e ‘homenagens’ que tem surgido como epidemias de fungos leprosos).

O buraco é mais embaixo, e só uma pá de cabo reforçado, curiosidade acima da média e interesse além do periférico podem exumar autores que caíram em um (quase) – e inexplicável! – esquecimento e outros - clássicos e contemporaneos - que carecem de uma maior visibilidade e reconhecimento: Sim, além dos suspeitos habituais nossa selva é povoada por pássaros raros e outros em franca extinção. Como foi dito, é um... Não, não, melhor dizer que nem todos têm saco, interesse e paciência para essa obsessiva ‘patologia arqueológica’; mas – BUT!  - se o negócio é dar aquela afunilada e peneirada a mais, afim de (tentar) identificar as fontes, bases e alicerces do fantástico, as coisas simplificam um pouquito... Ahaaaammm... Pelo menos em parte.

Talvez o Horace Walpole não tenha inventado a roda, mas certamente deu o pontapé inicial daquele baba gótico-horrorífico nos úmidos e penumbrosos corredores do seu Castelo de Otranto; o desbravador alemão E.T.A. Hoffmann – ainda bate um bolão! – consolidou o ‘conto fantástico’ e deixou aos seus herdeiros uma cartilha que incluía refinamento e profundidade psicológica, intensidade emocional, agonia romântica, imagética (proto) surreal, riqueza imaginativa e um genuíno clima de histeria, demência e insanidade; Maupassant e Poe deram continuidade à ‘demente’ escola hofmmaneana, enquanto o Arthur Machen e Algernon Blackwood (sobrenome sugestivo, não?) optaram por um fantástico de contornos e nuances místico-ocultista, porém com uma inclinação mais decadente e (paradoxalmente) puritana no primeiro e romântico-panteísta no segundo; Stoker e Shelley dispensam maiores comentários.

Os originais e influentes textos do Lovecraft incorporavam o realismo geográfico do Machen e Blackwood, a  poesia, pathos e onirismo Dunsaneanos com uma visão cínico-materialista que resultaram em contos magníficos (Lovecraft representa o que existe de melhor e pior na weird fiction contemporânea); menos influente que ele, mas digno de menção é o Robert Bloch, cujos polidos contos e romances – após uma pouco interessante ‘fase aprendizado’ lovecraftena – deram a pulp fiction uma (relativa) sofisticação psicológica, além de um humor irônico e sardônico semelhantes ao Roald Dahl e John Collier, porém sem o verniz mainstream-aristocrático.

Fritz Leiber – mais conhecido pela série de fantasia Fafhrd and the Grey Mouser – modernizou-o dando um sonoro búúúú as correntes, masmorras e fantasmas-furrecas da imensa parafernália gótico-vitoriana e nos mostrou que o mal – antes ‘externo’, metafísico e invasivo – pode tomar formas fuliginosas, arquitetônicas ou metamorfosear-se em outros signos e símbolos da nossa modernidade.

Se o Leiber jogou o horror no aqui-agora, o grande Richard Matheson consolidou-o e abriu caminho para o Stephen King tomar de assalto as livrarias e listas de best sellers.

O mega premiado e inovador Ramsey Campbell (discípulo de Leiber), por meio de um estilo de prosa imagético, surreal, oblíquo, alusivo e profundamente pessoal, sacode o bolorento pó lovecrafteano dos seus primeiros contos, mergulha de cabeça na modernidade e dela extrai surreais pesadelos urbanos carregados de tensão, inquietação, sexualidade e paranóia.  

Clive Baker não ficou atrás e surpreendeu uma nova geração de leitores com textos tão gráficos e viscerais quanto elegantes e refinados: nunca o sangue, vísceras, erotismo e decadência foram tão vistosos e acessíveis!

O inigualável – inimitável? - Norman Partridge pagou o preço da própria originalidade - Gentle Giant Syndrome! - e não me parece que tenha deixado discípulos (cedo demais?), ainda que tenha escrito alguns dos mais inovadores e geniais (!) contos dos anos 90.

É impossível fazer um apanhado de autores importantes – e tenham em mente que só estou tentando tocar a ponta de um ciclópico iceberg horrorífico –, sem falar naquele que é o mais profundo, original e – para este humilde escriba – maior escritor de horror desde o Lovecraft: Thomas Ligotti.

Este americano assombrou as publicações independentes no começo dos anos 80 com uma série de contos de uma finura psicológica, refinamento literário, originalidade de visão/expressão e (alta) carga filosófica, como poucas vezes se viu; na verdade ele chegou para completar aquela que é – em minha opinião – a Santíssima Trindade da Weird Fiction (Poe/Lovecraft/Ligotti); só agora, nós - preguiçosos mortais -, estamos acordando para esse gênio do fantástico.

Definir os contos do Ligotti da primeira fase como poeanos/lovecrafteanos pode parecer limitador e inadequado, mas também pode servir para situar o leitor, dando-lhe uma (vaga) noção do seu território filosófico-ficcional; porém é importante ressaltar que seus opulentos ‘pesadelos surreais’ – alucinações em tinta e papel - são inteiramente originais: seu estilo, imagética e geografia - emocional e metafísica - são puramente Ligotteanas. Não me recordo de nenhum autor vivo do underground que exerça maior fascínio e influência que ele (sua polêmica intensidade mórbido-surreal e reclusão Pynchoneana tem contribuído para sua mística).

No finalzinho dos anos 90 um culto começava a se formar em torno do seu nome e consequentemente uma nova geração de escritores tomou de assalto o fandom com uma leva de contos literatos, idiossincráticos e profundamente pessoais – meio que antecipando o movimento New Weird -, mas que de certa forma compartilhavam de uma mesma ‘Visão Ligotteana’: Quentin S. Crisp, Matt Cardin, Richard Gavin e, claro ...Mark Samuels...

The White Hands and Other Weird Tales é um volume que venho planejando ler há anos, mas confesso que encarei-o com um frio na espinha: raras são as coletâneas criticamente aclamadas que realmente me impressionam, mas isto não quer dizer que ‘clássicos’ são exclusividade do passado (embora alguns acadêmicos defendam essa visão): Ligotti (de novo homem morcego!), Norman Partridge, Angela Carter, Jeffrey Ford, Steven Millhauser, James Blaylock, Neil Gaiman, Rhys Hughes, Caitlin Kiernan, W. H. Pugmire, Jeff Vandermeer, Simon Strantzas, Laird Barron - dentre outros mestres absolutos do conto fantástico contemporâneo - acostumaram este curioso e teimoso leitor... mal,  muito mal: quem toma banho de banheira não quer mais saber de chuveiro, né?

Eu pretendia fazer uma resumão dos temas e estilos nos moldes do meu post sobre a Eudora Welty, mas no meio da leitura me vi enredado pela força e encanto do seu estilo e visão de tal maneira, que concluí que o mais adequado seria tentar uma abordagem mais detalhada; não sei se consegui, mas fica a tentativa:

The White Hands

“Muswell argued that the anthropocentric concerns of realism had the effect of stifling the much more profound study of the infinity. Contemplation of the infinite, he contended, was the faculty that separated man from beast. Realism, in his view, was the literature of the prosaic.”

Sinopse:

Acadêmico polêmico por suas teorias que refutam a literatura realista, é abordado por um desconhecido que pretende escrever uma monografia de uma autora cultuada e obscura chamada Lilith Blake, mas as pesquisas e discussões tomam outro rumo quando ele menciona ao estudante a existência de uma obra inédita chamada The White Hands and Other Tales.

Crítica:

The White Hands é o conto do Samuels mais reimpresso, e certamente um dos mais engenhosos em sua estrutura e execução. Estranho e fascinante híbrido entre o tradicional e o (pós) moderno, o texto oscila entre a homenagem – sem jamais cair no pastiche barato – e releitura da tradição da weird fiction mística, em especial à ficção do Arthur Machen com sua dimensão metafísica e alusões ao ‘other side’, sexualidade e natureza do mal.

A ‘suspensão da incredulidade’ é trabalhada com maestria e em certos momentos, mesmo sabendo se tratar de pura invenção, me vi tentado a ‘acreditar’ na existência da autora e seu livro (um dos muitos prazeres e fascínios que textos bem escritos nos proporcionam, não?). Dentre as várias passagens memoráveis e arrepiantes, vale destacar o ‘transplante metafísico’ das ‘mãos brancas’ da autora defunta para o acadêmico, quanto este lhe pede uma prova de sua identidade. The White Hands não apenas dialoga constantemente com a tradição clássica, mas no processo a reinventa de maneira engenhosa, inteligente e cativante.

Nota: 9,5


 

 

The Grandmaster´s Final Game

“ ‘There are certainly wicked man in the world, but much evil can be ascribed to folly or ignorance.’

‘No, Father. Not in this case. If a man comes back from the dead it means he is too wicked even for Hell to contain him. I’ve come to you because you are the only one who can help me.’

Sinopse:

Enxadrista angustiado e obcecado pela ideia da morte confessa a um padre seus obsessivos estudos de estratégia e um embate com um estranho oponente, sem saber que o padre tem um interesse mais que passageiro em xadrez.

Crítica:

Se me colocassem um três oitão na cabeça munido com balas dum-dum de alto impacto, e me obrigassem a selecionar um conto apenas mediano, certamente eu não estaria mais aqui (BAM! BAM!!). Mas se me pedissem para escolher um texto de temática mais ‘tradicional’...

Possessões demoníacas e a eterna luta entre o bem e o mal são dois dos temas mais recorrentes e populares do fantástico, na verdade tão desgastados que quando me deparo com textos desta natureza, uma pulga se ajola no pé do ouvido e os termômetros do ceticismo e desconfiômetro vão aos píncaros: “Mais uma história chata e previsível... Mais do mes... Mas, - But(!) - vou ler para falar mal.” (fluxo de consciência imaginário, chato e previsível: mais do mesmo.)

Portanto... Bem, Grandmaster’s é muito bom, aliás, tão bom que arriscaria colocá-lo entre as melhores estórias de possessão já escritas. Além da ‘dimensão metafísica’ – presente em outros textos do autor - que sempre dá um toque (e aprofundamento) a mais ao narrado, chama atenção a cuidadosa progressão do enredo e o sense of storytelling: o miolo do conto - que relata a escalada obsessiva do protagonista nos estudos e estratégias do xadrez e sua partida com o tinhoso - é nada menos que magnético. No terço final (sem entregar o ouro!) as coisas ficam pretas e bem... intensas: o trecho em que o padre é acometido por uma súbita ‘crise de fé’ é narrado com soberbo comedimento e dramaticidade:

“He was coming to believe that his vocation to the priesthood was a sham. It seemed but a feeble self justification of his inability to form a meaningful relationship with a woman. Suddenly he thought of the people that were being snuffed out like candle all across the world at that very moment. Those dying alone in hospital beds, blundled up besides dirty syringes…

…And all those who simply waste way, day by day, bit by bit, in the clutches of an intolerable sense of loneliness…

Dramático, intenso...

Se a estrutura e o desenrolar da trama carecem da inventividade do White Hands, por outro lado o desenvolvimento – nos moldes clássicos - opera a favor e em perfeita sintonia com a temática, com direito a um violento, inteligente e arrebatador final surpresa que eleva este conto (muito) acima do competente.

Ao finalizá-lo tive a (raríssima) sensação de ter adquirido um livro muito especial, mas o melhor ainda estava por vir.

Nota: 9,5


 


Mannequins in Aspects of Terror

“I wanted so badly to wander around inside the building and I told myself it was for the purposes of my pet architectural project. Yet perhaps it was really a fascination for solitude that drew me to it.”

Sinopse:

Designer amador nutre profunda admiração (e obsessão) pelo design e senso de desolação de um prédio decrépito projetado por um lendário arquiteto recluso e excêntrico, sem saber que o vigésimo sexto andar abriga uma exposição de ‘arte moderna’ (Mannequins in Aspects of Terror) criada pelo próprio.   Intrigado com a descoberta, resolve visitá-la.

 

Crítica:

Não é raro durante minhas leituras de textos ficcionais, fazer conexões e associações com outros textos, filmes, pinturas etc.; às vezes basta um diálogo indireto, construção frasal idiossincrática ou breve trecho descritivo para que minha mente entre em ebulição. Recortes psicológicos, intrusões autorais, impressões paisagísticas e desfechos epifânicos podem – também - servir como agentes catalizadores, ou então como pretextos para que meu ‘demônio-da-associação’ mostre suas garras salivantes e me ameace com uma baforenta fungada no cangote. Obviamente é um processo inteiramente involuntário e inconsciente, mas estimulante e prazeiroso: Futucar nossos ninhos de ácaros e exumar edições amareladas a fim de se fazer uma leitura comparativa, é um dos muitos prazeres que a leitura nos oferece.

Outro prazer - este mais raro - é ler um conto como Mannequins e concluir que a linha que separa um texto com ‘clima’ de pesadelo de um autêntico ‘pesadelo em papel’ é tênue. No último caso, a sensação é do leitor ser sugado gradativa e inexoravelmente para o drama: mero voyeur, ator e por fim, o próprio personagem (neste ponto-clímax o distanciamento entre texto-leitor é anulado por completo). É um efeito difícil de explicar, mas quem leu os romances do Philip K. Dick sabe do que se trata: imersão total. Mas, voltando às associações (sai prá lá tinhoso: maldito enxofre!), aqui fica claro o quanto o Thomas Ligotti foi importante e influente na formação da identidade literária do autor, pois, enquanto o estilo (e desenvolvimento) é tipicamente Samuelano, a atmosfera e imagética claramente Ligotteana (e digo isto como elogio!)

Aqui temos um Samuels no auge de suas habilidades; sua escrita impecável - límpida e fluente como um rio de água clara - aqui atinge um nível de maravilhosa precisão e elegância (quase) formal:

“I stood back and once again gazed up at Golmi’s monolith. Was it possible to reconcile the utopian vision of his design, with its sharp line soaring ever upwards, with the crumbling pile of dark, stained concrete and glass it had become? Both fascinated me.”

 Enquanto outros autores se valem de um estilo vistoso (quase intrusivo) e conscientemente rebuscado para obter efeitos de ‘surrealismo atmosférico’ imagética surreal e pirotecnia abstrata, Samuels se vale de uma prosa e construções frasais (enganadoramente) simples e vocabulário mundano. Não faço a mínima ideia de como ele consegue, mas... Não é aí que a literatura se transforma em pura ‘magia verbal’?

Este conto é uma verdadeira proeza: proeza de concepção, construção, artesanato, desenvolvimento, atmosfera e, ouso dizer, com um dos desfechos mais geniais e PERTUBADORES da história. Em 20 anos de leituras ininterruptas, conto nos dedos às vezes que fiquei tão impressionado – e pertubado! - com um final. Um clássico moderno.

Nota: 10


 


The Impasse

“The windows were barred on the outside and always dirty, as if from deter those within from seeing the world outside.”

Sinopse:

Advogado desempregado encontra vaga em uma enigmática empresa situada em um conglomerado de prédios decrépitos, mas no primeiro dia, ao examinar uma série de processos acusatórios referentes a direitos de propriedade intelectual, assim como as naturezas das defesas do antigo advogado, ele acha se tratar de uma piada.

Crítica:

De todos os contos deste volume, The Impasse pode ser visto como o mais explicitamente ‘moderno’;  se em outros textos o autor reinventa e atualiza antigos temas, aqui ele mergulha de cabeça - e leva o leitor junto – em um drama contemporâneo: a desumanização do ambiente de trabalho pela burocracia e os efeitos catastróficos no indivíduo.

As situações progressivamente ilógicas e absurdas que o protagonista é submetido são narradas com um comedimento, controle autoral e economia de efeito dignos de um Ambrose Bierce ou Kafka (sim, sua influência se faz fortemente sentida, em tema, estilo e execução).

Vale ressaltar a habilidade do autor em criar uma sensação de estranheza e profundo absurdo pelo uso de palavras simples e mundanas:

“He spent the rest of the day composing letters defending imagined, indefensible future infringements, and was relieved to find that the task became easier as he went on. It was almost like writing a novel, Cohen supposed, and he used all his skill and imagination in inventing a nebulous rationale for the Organisation’s position.”

Uma aura de sonambulismo, estagnação, decrepitude e decadência – física, mental e emocional – exala das entrelinhas e nos atinge com absoluta convicção.

Raramente construo resenhas com empilhamentos de elogios, mas não consigo enxergar defeitos neste texto primoroso.

Nota: 10


 

 

Apartment 205

“The reflection showed only the velvet curtains behind him. He was looking into a rectangular slab of perfect blackness.”

Sinopse:

Estudante de medicina atormentado por pesadelos, recebe a visita de um estranho inquilino morador do 205; durante sua ausência, em meio a crises sonambúlicas, adentra o recinto - semelhante ao quarto sem janelas do seus sonhos – e se intriga com paredes forradas com cortinas de veludo e um espelho arranjado em posição incomum.

Crítica:

Eu ainda me espanto com a habilidade de alguns autores em fisgar o leitor nas primeiras linhas; Philip K Dick, Clive Barker e Tim Lebbon cumprem essa tarefa com louvor; melhor ainda se a isca for de uma espécie intrigante e instigante (Kafkeana?):

“Pieter Slokker awoke from a dream in which he was trapped in a dark, windowless room. It was three o’clock in the morning and it sounded as if someone was hammering at the door of his flat.”

Mas, - but! - intrigante e intelectualmente estimulante como é, não nos prepara para a alucinatória invasão místico-surreal-introspectiva que a conclusão da primeira metade nos propõe: bebida seca e exótica de ranço amargo, mas de efeito devastador, duradouro e estimulante.

É o tipo de conto que quanto menos se souber melhor, portanto vou me ater ao seu tom e ambiência (opa, mais comparações e associações homem morcego?). Interessante notar como ao longo da coletânea uma ‘atmosfera old fashioned’ paira nos textos, mesmo aqueles com uma ambientação explicitamente contemporânea, mas aqui, não apenas ela ganha destaque, mas compartilha de uma ambiência bastante comum em obras do centro e – principalmente – leste europeu; estou me referindo a escritores como o Danilo Kis, Gustav Meyrink, Kafka e Stefan Grabinski; em especial este último cujos – fabulosos! - contos de tom soturno-alienatório-obsessivo em muito se assemelham aos textos do Samuels. O romance “O Inquilino-Roland Topor” (livro e filme recomendadíssimos!) me vem à mente também como parente espiritual.

Como falei anteriormente, texto forte de ‘efeito espiral’, mas quem quiser fugir da mesmice e clichês...

Nota: 10


 

 

Colony

“Perhaps, I felt, since their old customs and religious practices had fallen into abeyance, the common identity that bound them together and separated them from outsiders was informed mainly by a sense of shared loss? Perhaps it operated like a black hole at the centre of their mental universe, sucking them ever inwards?”

Sinopse:

Homem solitário se sente progressivamente atraído pelos estranhos moradores de sua nova vizinhança, em especial uma enigmática femme-fatale.

 

Crítica:

Quando li este conto pela primeira vez, o enredo e a ‘mensagem’ me pareceram elusivos (sem dúvida por uma deficiência interpretativa de minha parte); ainda não tenho certeza, mas uma segunda leitura me fez ponderar sobre dois aspectos que parecem fascinar o autor: a impossibilidade de um conhecimento absoluto e a incomunicabilidade inata entre humanos. Alienação e comportamentos obsessivos/ritualísticos ganham aqui um colorido mais mudo e tonalidades sóbrias, distantes da intensidade mórbida e maníaca de Apartment 205. Conto de zumbi? Não, não mesmo, e talvez uma interpretação metafórica seja inadequada. Melhor mesmo seria ler este quiet horror misterioso e enigmático e tirarem suas conclusões.

Nota: 8,5


 

 

The Vrolyck

“I am a person’ I said, ‘who requires separation from other people.” I had found that too much contact with them invariably disturbed the state of withdrawal that allowed me to function.

Sinopse:

Escritor insone encontra uma jovem em um Café noturno e, inicialmente a contragosto, se envolve em uma discussão sobre literatura e lhe fala sobre o manuscrito do seu romance. Entusiasmada, ela lhe pede emprestado para opinar, sem saber o que lhe aguarda.

 

Crítica:

Histórias de invasão e/ou possessão alienígena são dois dos temas mais populares, conhecidos e explorados pela FC, porém textos com uma abordagem mais sombria e horrorífica são (comparativamente) mais raros. Lovecraft em seu – se não me engano – Sombras Perdidas no Tempo inclui uma passagem em que um cidadão é possuído e transportado para outra dimensão; A Guerra dos Mundos do H.G. Wells abunda em cenas cujo efeito é de puro horror. Dois exemplos ao léu, mas dignos de menção.

Minha (quarentona) memória - senil e decrépita, aaarrgghhh! - não me permite afirmar que o clássico conto Destruidor Negro do A. E. Van Vogt aborde o tema da possessão, mas ainda tô pra ler um texto que mescle FC clássica com uma (genuína!) atmosfera de puro horror com igual maestria. The Vrolyck dialoga com essa tradição clássica, mas em se tratando de um conto do Samuels, o velho dito ‘nada é o que parece’ ganha novas nuances e contornos. Se noutros textos - que classifico como ‘horror especulativo’ - suas fascinantes ideias e especulações tocam timidamente o terreno da FC, aqui elas se tornam o foco, porém sem - em momento algum - operar como ‘elementos intrusivos’, nem ofuscar aquela que é - em minha opinião - sua marca registrada (o Samuel’s touch): a ideia de uma ‘força’, misteriosa e abstrata que, gradualmente, inexoravelmente, envolve e asfixia o protagonista e leitor.

Aqui essa ameaça toma a forma de uma silenciosa invasão alienígena que usa como portal o manuscrito de um romance que – em um sutil e fascinante jogo-diálogo metalinguístico – pode conter hints e ‘pistas’ para essa invasão, assim como um (parcial) entendimento do enredo e do big canvas (lovecrafteano, não?).

Subtendido, mas nem por isso menos digno de menção, é a ideia da ‘linguagem tóxica’ ou ‘virótica’, onde a disseminação de palavras podem ter consequências catastróficas (que melhor ‘esconderijo’ para uma invasão que nas entrelinhas, ideias e palavras de um manuscrito de um escritor alienado e obscuro?).

Eu poderia ficar horas a fio tentando destrinchar os fascínios e mistérios deste texto maravilhoso, mas prefiro fechar esta resenha com uma dicazinha: leiam  agora – se possível uma segunda vez - pois está disponível gratuitamente no site da  - editora: http://www.tartaruspress.com/vrolyck.pdf

Nota: 9,8


 

 

The Search for Kruptos:

“ I have never seen so many books. They were everywhere: on icy streets, floors, in doorways, blocking windows. And at times I saw ghostly forms, like images from faded photographs, endlessly searching through the volumes as we travelled through the decrepit chaos…”

Sinopse:

A procura por um elusivo e enigmático manuscrito metafísico chamado Kruptos, leva o narrador aos gelados confins de uma Europa dominada pelos nazistas, mas encontrá-lo pode ser uma tarefa impossível. Em meio ao domínio alemão, entre o sonho, devaneio e realidade, ele chega a Karnswilloch, enigmática ‘bibliocidade’ onde tomos obstruem ruas, janelas e casas, e despencam no solo como ‘folhas de outono’.

 

Crítica:

De um genuíno - e surreal - pesadelo Ligotteano em Mannequins, para uma onírica e pertubadora fábula Borgeana. Borgeana sim, mas o Samuels incorpora suas influências sem que seus textos descambem para o mero pastiche: Majestosa Biblioteca de Babel erguida com material familiar, mas de design, arquitetura e conteúdo tipicamente Samuelano (santa adjetivação homem morcego!).

Bons textos frequentemente colocam este pobre – e verboso! - resenhista em apuros, em um ‘desespero por palavras’, mas Kruptos não é meramente bom, é primoroso (na verdade uma pequena obra prima), portanto minha tarefa em resenhá-lo se torna - consequentemente - inútil (Um fracasso anunciado hô hô hô hô!); na verdade tão bom, que se eu mencionasse sua originalidade de concepção, engenhosidade de construção e riqueza de imaginação, ou então a finura de estilo e habilidade do autor em pintar cenas, imagens e nuances emocionais com pinceladas rápidas e certeiras, certamente minhas palavras não fariam jus ao texto; o que dizer então das oscilações e variações tonais – do introspectivo e soturno ao poético-onírico-elegíaco – e estilísticas? Até mesmo a devastadora e moralmente complexa conclusão soaria opaca e sem sal. Portanto, o mais sensato mesmo seria... resenhá-lo sem resenhá-lo: Tchau!

Nota: 10


 

 

Black as Darkness

“If someone had perpetrated a practical joke nobody was admitting to it, and no one had satisfactory explanation of the events. The film seemed to have been cursed from the outset…”

“There was a cruel sensuality in her face; the look of a woman who found life’s pleasures barren.”

Sinopse:

Distanciamento repentino de um amigo – casado no passado com uma atriz obscura e decadente - leva um homem a reviver o passado e as causas que levaram ao desgaste, mas quando ele recebe uma carta informando-lhe de sua visita e da descoberta de um filme underground onde ela participa, a situação toma rumos inesperados.

 

Crítica:

Black as Darkness é um conto tipicamente britânico. Não que os americanos não explorem a ‘mitologia do underground’ e suas lendas urbanas, mas histórias envolvendo filmes proibidos, desaparecimento em metrôs (assim como suas lendas), psicoarquitetura, ‘mistérios urbanos’ e o efeito de experiências traumáticas no indivíduo, me parecem mais o território ficcional de escritores da linhagem do Ramsey Campbell, Ian Sinclair, Joel Lane, M. John Harrison, Alan Moore, Nicholas Royle e – mais recentemente - Conrad Williams.

Aqui o Samuels brinca com as lendas dos filmes amaldiçoados e de quebra adiciona uma boa dose de mistério, fantasmagoria e sexualidade. Interessante notar como o autor incorpora temas tão caros ao Arthur Machen - em especial a natureza e poder de sedução do mal e o poder destrutivo (na visão puritana) da sexualidade – sem que sua ‘voz literária’ se perca em meio as – ocasionais - especulações metafísicas tipicamente Macheneanas, proeza esta conseguida também pelo Peter Straub no magistral Os Mortos Vivos (Ghost Story).

O sutil e engenhoso twist nas páginas finais – menos brusco que em The Grandmaster’s Final Game -  fecha o conto de maneira impactante e satisfatória.

Nota: 9,0


 

The White Hands and Other Weird Tales superou todas minhas expectativas e não me vem como surpresa ser considerado um clássico moderno: Bravo Mr. Samuels!

Comentários   

#4 Ramon Bacelar » 29-06-2012 15:46

Opa,

Acho que consegui passar um pouco do meu entusiasmo para a resenha.Valeu pessoal :lol:
0 +−

Ramon Bacelar

#3 Guilherme Araujo » 26-06-2012 15:41

Concerteza Victor. Está na lista de livros que tenho que adiquirir.

Ótima resenha Ramom. uma critica muito boa, apresentando os aspectos mais importantes da obra. Você conseguiu me vender o livro.
0 +−

Guilherme Araujo

#2 Victor Meloni » 26-06-2012 15:21

Ramon, meu caro, deixaste-nos - creio - com irremediável gana por tal obra! Pelos deuses africanos, coloquemo-nos atrás desta antologia!
0 +−

Victor Meloni

#1 Luiz Poleto » 20-06-2012 20:20

Biscoito fino! Já está na lista para comprar. :)

Já estava sentindo falta do Ramon criador das melhores resenhas que já li! Bem vindo de volta! :P
+1 +−

Luiz Poleto

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