Resenha de livro: Homunculus – James P. Blaylock (1986)

(3 votos, média de 4.67 em 5)

 

 

Resenha de livro: Homunculus – James P. Blaylock (1986)


“There was no room in the world of science for mediocrity, for half measures, for wet cigars.”


Curiosidades:

–Romance premiado com o Philip K. Dick Awardde 1986.

– Compõe a quadrilogia clássica representativa da filosofia e estética Steampunk:

The Morlock Night (1979) – K. W. Jeter

Os Portais de Anúbis (1983)– Tim Powers

Homunculus (1986) – James P. Blaylock

The Infernal Devices (1987) – K. W. Jeter


Sinopse:

Londres – Segunda metade do século XIX. Um misterioso dirigível pilotado por um esqueleto atado à direção,desperta a atenção do excêntrico inventor Langdon St. Ives e do fanático religioso Shiloh, cuja ligação com o vivisseccionista Ignacio Narbondo sugere experimentos ligados à reanimação de mortos assim como uma misteriosa caixa e a procura por um lendário homúnculo.

 

Crítica:

Um grupo de amigos que se reúne regularmente em uma tabacaria; um inventor de brinquedos envolvido na criação de um moto-contínuo; o projeto de uma espaçonave em uma casa de campo (e outra supostamente escondida em um bordel comandado por um cafetão-magnata). Tabaco, lunáticos, chuva, feirantes, floristas,salsichas, ervilhas, maquinações diabólicas,cientistas-filósofos, filosofias abstratas, maneirismo, paixão,divagação, fumaça, ciência bizarra, novas maquinações, ofuscações (literais e metafóricas), paródia, desvios, besteirol,especulações...Ufa!...Ufa? Não: Cachimbos e bebidas escondidos em pernas de marfim;jacarés mecânicos devoradores de borboletas;atmosfera soturna,personagens afetados, imagética de desenho animado... Só isso?! Não, não mesmo:Zumbis (vivos e mortos), prostitutas, carpas, glândulas, donzelas, humor cartunesco, caricaturas vilanescas, intriga, morte, ressurreição,escuro, pastiche, caos, charlatanismo, afetação, artifício,ameaça genuína, pistas falsas, narração oblíqua, conversa fiada, novas divagações, mais atmosfera e... Labirintos: de ruas, enredo,intriga, mistério e linguagem... Pois é...E eu aqui tentando arranhar a ponta desta ciclópica e convoluta arquitetura  neo-vitorianade (enganadoras!) 250 páginas.

James Blaylock é um daqueles autores que se deleitam com as palavras: floreios de linguagem, aforismos estilosos, descrições detalhadas e pinturas verbais; tudo parece subordinado ao uso da língua:seja na criação de uma imagética intensa - impressa a fogo em nossas mentes com um potente maçarico verbal -, cujas fontes vão dos desenhos animados e gibis...

Within the gondola, looking for all the world as if he was piloting the moon itself, was a rigid figure in a cocked hat, gripping the wheel, his legs planted widely as if set to counter an ocean swell. The wind tore at his tattered coat, whipping it out behind him and revealing the dark curve of a ribcage, empty of flesh, ivory moonlight glowing in the crescents of air between the bones. His wrists were manacled to the wheel, which itself was lashed to a strut between two glassless windows.”

…ao caldeirão cultural, mística e romance científico vitoriano...

“He had been haggling with a seller of gyroscopes and abandoned shoes about the coster’s supposed knowledge of a crystal egg, spirited away from a curiosity shop near Seven Dials and rumoured to be the window through which, if the egg were held just so in the sunlight, an observer with the right sort of eyesight could behold a butterfly- haunted landscape on the edges of a Martian city of pink stone, rising above a broad grassy lawn and winding placid canals.”

...ou na criação de sensações e atmosferas. Sua prosa tem cheiro, volume, poesia e sabor:

“The street was silent and wet, and the smell of rain on the pavement hang in the air of the tobacco shop, reminding the Captain briefly of spindrift and fog. But in an instant it was gone and the thin and tenuous shadow of the sea vanished with it.”

O humor, sempre presente, toma diversas formas...

“The woman nodded and smiled. She hadn’t, Kraken noticed, any front teeth.What were a few teeth? Several of his own were gone. She wasn’t, taken altogether, utterly unappealing. That is to say, there was something about her, in the pleasant pudding of her cheeks, perhaps, or in the way she fleshed out the tattered merino gown she wore so thoroughly – almost as if she poured into it from a bucket. A large bucket, to be sure.”

“In Krakens’ left hand was an oval pot with a swing handle, the pot swaddled in a length of cloth, as if Kraken carried a head of an Hindu.”

...assim como a sombra gótica dos horrores de Hoffmann e Poe:

“I'm possessed by the most evil aching of the head - such that my eyes seem to press down to the size of screwholes, so that I see as if through a telescope turned wrong end to. Laudanum alone relieves it, but fills me with dreams even more evil than the pain in my forebrain. I'm certain that the pain is my due - that it is a taste of hell, and nothing less… And I can feel myself decay, feel my tissues drying and rotting like a beetle-eaten fungus on a stump, and my blood pounds across the top of my skull. I can see my own eyes, wide as half crowns and black with death and decay

Outras vezes o prazer da leitura deriva de passagens descritivas que arranham o poético:

“The houses fronting the narrow stretch of Pratlow Street cramped between Old Crompton and Shaftsbury were miserable with neglect. Whereas years and whether sometimes soften the faces of buildings, betraying some elements of passing history, some reflection of the subtle artistry of nature, on Pratlow Street no such effects has been accomplished.”

E momentos do mais puro deleite imaginativo:

“Hanging from the joists were no end of marvels: winged beasts, carved dinosaurs, papier-mâché masks, odd paper kites and wooden rockets, the amazed and lopsided head of a rubber ape, anenormous glass orb filled with countless tiny carved people.”

Suas descrições– especialmente nos contos e romances de fantasia urbana mágico-realista – quase sempre abrem “áreas em branco” e sugerem algo mais além da superfície textual:

“Something about the wind made him edgy, restless. There was too much noise in it, and the noises seemed to him to be portentous.”

E no conto “Paper Dragons”:

“...the clouds parted for an instant and a spray of stars like a reeling carnival shone beyond, until, like a curtain slowing drawing shut, the clouds drifted up against each other and parted no more. I’m certain I glimpsed something – a shadow, a promise of a shadow – dimming the stars.”

Por mais surpresas e reviravoltas que o enredo nos proporciona, além da prosa, é na atmosfera, sense of quirkness, idiossincrasias imaginativas e excentricidade de comportamento que o romance nos cativa: cada personagem pulsa com vida própria e personalidade distinta, seja em um gesto, aparato ou mania. Vilões são tão absurdos, afetados e caricatos quanto os good guys. Blaylock consegue um fantástico equilíbrio entre farsa, suspense, mistério, humor e (ocasionalmente) horror; um autor em perfeito controle do seu material que sabe dosar os elementos sem cair em “extremos puristas”; ele gosta de...ahaaaamm...tons de  cinza: um terror ecoado por risadas, humor com um que de ameaça e situações que se equilibram entre o sério, farsesco, absurdo e totalmente ridículo. Os personagens parecem rir de nós (e si próprios) o tempo todo; não se levam a sério e nós, emaranhados na rede verbal do pesadelo cômico - finamente tecida por esse fanfarrão literário que é o Blaylock - rimos quase sem querer: sense of fun elevado à estratosfera!

Assim como seu amigo Tim Powers, o autor gosta de temperar suas histórias com personagens e referências históricas, “gonzo speculations” e conspirações, mas enquanto Powers é controlado e mão firme no enredo, Blaylock me parece (conscientemente) mais tresloucado, divagatório, sensorial, estilisticamente mais vistoso e “irresponsável” com as palavras, um anacrônico representante da “arte inútil”:a divagação pela divagação,o floreio de linguagem pelo simples prazer da sensação e sonoridade verbal, e eu leitor, agradeço.

Se você gosta de enredos claros, lineares e bem estruturados; personagens realistas, prosa direta e ritmo frenético, talvez não seja seu cup of tea (sempre o recomendo com reservas); dito isto, da primeira leva Steampunk da santíssima trindade – Blaylock-Jeter-Powers – Homunculusme parece o livro-síntese do movimento, aquele que melhor traduziu seu espírito.

Para Blaylock, mais importante (e interessante) que a intricada teia de correias dentadas e convoluta mecânica do maquinário, é o vapor que ele exala: ofuscante, insidioso e profundamente sugestivo.

Nota: 9,5

Comentários   

#3 Ramon Bacelar » 01-06-2013 17:01

Morevi: Gosto bastante de Steampunk como movimento estético-visual pois sou louco pela estética e literatura vitoriana, mas foram os primeiros clássicos - a primeira new wave - que consolidaram meu interesse, em parte por beberam dos originais: Verne (francês,mas super inglês), Wells, Dickens, Doyle etc. Tenho reservas a essa nova onda literária,mas tem aparecido coisas bacanas. :roll:

Brunna: Se você gosta do clima da época vale a pena. :P
+1 +−

Ramon Bacelar

#2 Carlos Morevi » 01-06-2013 16:02

Excelente resenha, Ramon, principalmente a observação final sobre o vapor, que é a força de todo esse gênero. Quando o steampunk estourou, eu tinha minhas reservas sobre o gênero, parecia algo que só se resumia pela estética visual. Mas conforme eu fui descobrindo literaturas no estilo, acabei imergindo no clima.
+1 +−

Carlos Morevi

#1 Brunna » 31-05-2013 13:39

Me pareceu muito interessante. Gostei bastante da resenha.
+1 +−

Brunna

Você está aqui: Resenhas Livros Resenha de livro: Homunculus – James P. Blaylock (1986)